Autores: Diogo de Alcântara Pereira; Ernesto Cros Valdez; Charles Huffam Dickens.
Contato: metagrafia@gmail.com Website: http://www.taquigrafia.ucoz.com Palavras-chave: taquígrafos, estudo, motivação
Como citar este artigo:
Pereira, Diogo de Alcântara. Valdez, Ernesto Cros; Dickens, Charles Huffam. O taquígrafo engraxado. Revista Taquigráfica, n°1, 2009. Disponível em: http://taquigrafia.ucoz.com/publ/5-1-0-4
O Taquígrafo Engraxado
"A vida de cada um, apesar de sempre táquia e estênia, quer seja registrada com traços precisos e coloridos, ou com garranchos indecisos e tenebrosos, perdura para sempre na memória absoluta da eternidade. Lembrar-vos-á disso!".
Traddles, um velho amigo de David Copperfield, a este afirmava que “o perfeito e cabal conhecimento da arte misteriosa da taquigrafia, oferecia, por si só, quase as mesmas dificuldades que se teria para se aprender seis línguas, e que mesmo com muita perseverança não se poderia conseguir algum resultado a não ser depois de vários anos”.
Mesmo com esta afirmativa tão dura e com o levantamento de obstáculos tão fortes, Traddles não conseguiu impedir que fosse a taquigrafia a responsável por uma das mais lindas histórias de amor que a humanidade veio a conhecer. Copperfield, nome que encobre o do grande escritor inglês Charles Dickens, não via nisso senão – utilizando suas próprias palavras – “algumas árvores a mais a cortar para chegar até sua amada Dora. E tomou a decisão de “investir contra esse matagal de machado em punho”. E respondeu ao seu amigo:
- Pretendo começar amanhã.
E realmente assim aconteceu. David comprou um compêndio de taquigrafia e deu-se ao trabalho com grande perseverança. Era um dos ferros em brasa que devia malhar imediatamente para a conquista da mulher amada. Mas deixemos que o próprio autor nos diga do seu início:
"Mergulhei num oceano tal de perplexidade que, em poucas semanas, cheguei às raias da loucura. Todas as mudanças que podia trazer um desses pequenos sinais, que, colocados de um modo significavam tal coisa, e outra quando postos em posição diferente; todos os maravilhosos caprichos que representavam aqueles círculos indecifráveis; as incontáveis conseqüências de uma figura feita de riscos que mais pareciam pernas de mosca; os tremendos efeitos duma curva mal delineada não me perturbavam somente as horas de estudo; iam além e me perseguiam até durante o sono".
"Quando, finalmente cheguei a orientar-me mais ou menos, às apalpadelas, nesse labirinto, e a conhecer o alfabeto, que equivalia a um templo de hieróglifos egípcios, fui assaltado por uma chusma de novos horrores – os chamados caracteres arbitrários. Eram de fato os caracteres mais tirânicos que algum dia vira: havia, por exemplo, um fio de teia de aranha que significava “expectativa” e um rabisco de tinta semelhante a um rabo de foguete que queria dizer “desvantagem”".
As dificuldades, quando pareciam superadas, multiplicavam-se mais adiante, e o grande Dickens mesmo afirma que era de desanimar. Mas, emenda, a seguir:
"Seria de desanimar, se Dora ali não estivesse a incutir-me coragem. Oh Dora, porto e âncora de meu barco castigado pelo tempestuoso mar! Cada progresso na taquigrafia era como um nodoso carvalho abatido na floresta das dificuldades. E dei-me a abatê-los com tal excesso de energia que, ao cabo de três ou quatro meses me achei habilitado a tentar uma prova com um dos nossos tagarelas da Câmara dos Comuns".
E, chegado o momento, ainda ele nos conta:
"Nunca hei de me esquecer como o tagarela tomou a dianteira, sem esperar por mim, falou e terminou a arenga, diante do meu nariz, sem que eu ao menos tivesse começado, graças ao imbecil do meu lápis, que tremelicava sobre o papel como se sofresse um ataque de histerismo! A coisa não progredia, era evidente. Fora demasiado ambicioso e, dessa maneira, não alcançaria nada. Tinha querido voar muito alto, e mister se fazia começar mais modestamente".
O primeiro fracasso de Dickens fez-lhe ver que estava no caminho errado. Voando, realmente, muito alto. E começou tudo de novo. Fez de sua casa uma espécie de parlamento em miniatura. E com o auxílio de seu amigo Traddles, principiou a apanhar ditados lentos, pausados, até conquistar a automatização na escrita dos símbolos, para assim galgar novos índices de velocidade na escrita. Deixemos que ele ainda nos conte alguma coisa:
"Mercê de um bom treino, pude a pouco e pouco seguir os discursos de Traddles. Todavia, meu triunfo teria sido completo se eu fizesse a mínima ideia do que diziam meus garranchos. Mas a verdade é que os decifrava tanto como se houvesse copiado caracteres chineses de uma vasta colecção de caixas de chá. Só me restava uma coisa: retroceder e principiar de novo. Era penoso, porém resignei-me, embora de coração amargurado, e recomecei laboriosamente pelo mesmo caminho, a fim de examinar com cuidado cada sinal, por todos os lados, fazendo esforços consideráveis, desesperados, para reconhecer à primeira vista esses caracteres desconcertantes".
E mais adiante surge esta parte maravilhosa da narrativa:
"Sinto que não devia narrar, embora este manuscrito não seja destinado senão a mim, com que ardor me entreguei aos trabalhos tremendos da taquigrafia, consciente das responsabilidades que assumira perante Dora e suas tias. Mas acrescentarei ao que já disse da minha perseverança nessa época, e da minha energia e paciência, que olhando agora para trás reconheço estar aí a origem do êxito que alcancei. Fui bastante afortunado nos negócios. Muita gente tem trabalhado com mais afinco do que eu e não conseguiu nem metade do que eu consegui. Contudo, nunca alcançaria esse triunfo sem o hábito da pontualidade, ordem, e diligência que comecei a contrair e, sobretudo, sem a faculdade que então adquiri de concentrar toda a minha atenção num só objeto de cada vez, sem me inquietar com o que lhe ia suceder depois".
"Deus sabe que não escrevo isso para me vangloriar! Um homem que rememora sua própria vida, como agora faço, página por página, devia ser realmente sobre-humano para não sentir remorsos diante de tantos talentos desprezados, tantas oportunidades perdidas, tantos erros, tantos sentimentos maus e levianos sempre em guerra com o coração - e tantas vezes vencedores. É provável que eu tenha empregado mal, como qualquer outro, todos os dons que recebi. Entrementes, o que quero dizer simplesmente é que, desde aquele tempo, tudo o que eu tinha de executar neste mundo, procurava fazê-lo bem, que me devotei de corpo e alma a tudo que empreendi, e que assim, nas pequenas como nas grandes coisas, marchei sempre decididamente para o fim".
"Não acho que seja possível, mesmo aos filhos de pais influentes, conseguir o êxito se não unirem ao talento natural essas virtudes mais humildes que são a vontade e a perseverança. O talento e a oportunidade podem formar os sustentáculos da escada que certos homens sobem, mas os degraus devem ser resistentes e sólidos; e nada substitui a sisudez, a consciência, e o ardor sincero".
"No meu caso, em vez de avaliar as coisas pela superfície, sempre me deixei afundar na tarefa, fosse esta qual fosse. Porventura, eis que estas foram às regras de ouro com as quais me dei tão bem".
Se me perguntassem que coisas deve fazer alguém para aprender taquigrafia, não encontraria conselhos mais atuais e nem melhores do que estes que Dickens nos deixou. E congratulemo-nos, os taquígrafos, por ver o quanto a taquigrafia contribuiu para a formação e consolidação da personalidade do grande e talentoso escritor, uma das glórias da humanidade.
Charles John Huffam Dickens, certamente teria mais razões que muitos de nós, para fim de justificar o desenvolvimento de mais uma destas histórias de vida amarguradas, sem brilho, sem das ações o reflexo significativo no mundo, sem do reflexo a significativa reflexão da alma. Mas, quem sabe, justamente a prisão do pai? Ou, talvez, e, a adolescente labuta em mera fábrica que produzia graxa para sapatos, pudera outorgar a ele, o melhor emprego de suas razões?
Sabe-se lá! Sabe-se aqui, que, uns dos primeiros braços de polimento necessários para que, o brilhantismo de Dickens pudesse esparzir-se por todo o globo terrestre, fazendo dele um dos introdutores da crítica social na literatura de ficção inglesa, e um dos romancistas mais agraciados da era vitoriana, certamente fora, justamente aí, pelos desígnios da vida, não à toa, sobre suas costas, sobreposto.
Ele, por amor estudou taquigrafia, e esta o levou a métodos de disciplina e trabalho que o tornaram o imortal que todos admiramos e festejamos. Com a taquigrafia iniciou sua carreira, dominando essa “arte misteriosa e selvática”, como a chamou, fez fortuna, figurou entre os 12 taquígrafos da Câmara dos Comuns, e legou-nos o seu maravilhoso exemplo.
Beneficiemo-nos então, uma vez mais, desta chama acesa por Dickens. Chama que ainda hoje perdura, e cujos raios - talvez o menos significativo deles - é capaz de, em muitos, iluminar a curiosidade e o interesse pela taquigrafia, e, em tantos outros, acender ou reacender a motivação necessária para persistir, levar adiante seus estudos taquigráficos, para com lápis ou caneta, delinear, de maneira incomum e extraordinária, sua própria meta-história de vida.
Referências:
Dickens, Charles Huffam. David Copperfield. Penguim Popular Classics, 1993.
Valdez, Ernesto Cros. Teoria e prática do Sistema Estenital para a língua portuguesa. Pp 93-96. Livraria Selbach, 1961.
Wikipédia: Charles Dickens. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Dickens
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